Núcleo Normativo • Gestão Pública

Governança Pública

Guia de estudo sobre fundamentos, mecanismos e aplicação prática da governança no setor público, com base no Decreto nº 9.203/2017, no Referencial Básico de Governança Organizacional do TCU e em normas relacionadas a integridade, riscos, transparência, participação social e contratações.

Liderança Estratégia Controle Gestão de Riscos Integridade Accountability Resultados

1. O que é Governança Pública?

A governança pública pode ser compreendida como o conjunto de mecanismos, estruturas, práticas e processos utilizados para avaliar, direcionar e monitorar a atuação da gestão, buscando assegurar que políticas, serviços e recursos públicos estejam orientados ao interesse da sociedade.

No âmbito da Administração Pública federal direta, autárquica e fundacional, o Decreto nº 9.203/2017 define governança pública a partir dos mecanismos de liderança, estratégia e controle.

Em uma frase: governança é a forma pela qual a organização pública define rumos, supervisiona a gestão, administra riscos e verifica se os resultados entregues correspondem ao interesse público.

2. Governança não é sinônimo de gestão

GovernançaGestão
Avalia o ambiente, as necessidades e os resultados.Planeja e executa atividades operacionais.
Define direcionamentos e prioridades.Implementa os direcionamentos recebidos.
Monitora desempenho, riscos e resultados.Administra recursos, pessoas, processos e contratos.
Atua predominantemente em nível estratégico.Atua predominantemente nos níveis tático e operacional.
Pergunta: “Estamos fazendo as coisas certas?”Pergunta: “Estamos fazendo corretamente?”
Não confundir: governança e gestão são complementares. Uma boa governança sem capacidade de execução produz poucos resultados; uma gestão eficiente sem adequado direcionamento pode executar muito bem prioridades equivocadas.

3. Base normativa e referências

Decreto nº 9.203/2017

Dispõe sobre a política de governança da Administração Pública federal direta, autárquica e fundacional e apresenta conceitos, princípios, diretrizes e mecanismos.

Referencial Básico do TCU

A 3ª edição do Referencial Básico de Governança Organizacional do Tribunal de Contas da União organiza boas práticas de governança aplicáveis a organizações públicas e outros entes jurisdicionados ao TCU.

Constituição Federal

Os princípios do art. 37 — legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência — constituem fundamento jurídico para uma Administração Pública responsável e orientada a resultados.

Lei nº 14.133/2021

Nas contratações públicas, atribui expressamente à alta administração responsabilidade pela governança das contratações, incluindo gestão de riscos e controles internos.

4. Princípios da governança pública

O Decreto nº 9.203/2017 destaca os seguintes princípios:

Capacidade de resposta

Aptidão institucional para responder às necessidades dos cidadãos e às mudanças do ambiente.

Integridade

Atuação ética, prevenção de desvios e proteção do interesse público.

Confiabilidade

Coerência, estabilidade, previsibilidade e qualidade das decisões.

Melhoria regulatória

Aprimoramento das normas e decisões regulatórias, considerando impactos e resultados.

Prestação de contas e responsabilidade

Dever de explicar decisões, demonstrar resultados e assumir responsabilidades.

Transparência

Disponibilização de informações claras, úteis, acessíveis e tempestivas.

5. Ciclo da governança: avaliar, direcionar e monitorar

Avaliar Direcionar Monitorar

Avaliar

Compreender necessidades das partes interessadas, desempenho atual, riscos, capacidades institucionais e alternativas disponíveis.

Direcionar

Definir políticas, prioridades, objetivos, responsabilidades, limites de risco, critérios decisórios e resultados esperados.

Monitorar

Acompanhar execução, indicadores, riscos, controles, resultados e desvios, adotando correções sempre que necessário.

Governança é um ciclo contínuo: o monitoramento gera novas informações, que alimentam outra avaliação e podem exigir redirecionamento da estratégia.

6. Os três mecanismos centrais: liderança, estratégia e controle

Liderança

Relaciona-se à atuação da alta administração, à definição de valores, papéis, responsabilidades, competências, ética e condições para o exercício da boa governança.

Estratégia

Abrange objetivos, prioridades, planejamento, relacionamento com partes interessadas, alinhamento de recursos e acompanhamento dos resultados institucionais.

Controle

Inclui gestão de riscos, controles internos, auditoria, transparência, prestação de contas e avaliação do desempenho.

7. Quem participa da governança?

Ator / instânciaPapel típico
Alta AdministraçãoDefine direcionamento, prioridades, apetite a riscos e resultados esperados.
Comitês de governançaApoiam decisões estratégicas, integração e monitoramento.
GestoresTransformam diretrizes em planos, processos, projetos e entregas.
Áreas de riscos e controlesApoiam identificação de riscos, controles e conformidade.
Auditoria internaFornece avaliação independente sobre governança, riscos e controles, conforme suas competências.
Controle externoFiscaliza legalidade, legitimidade, desempenho e utilização de recursos públicos.
Cidadãos e usuáriosParticipam, avaliam serviços, apresentam demandas e exercem controle social.

8. Governança e gestão de riscos

Governança e gestão de riscos são inseparáveis. A alta administração precisa conhecer os principais eventos capazes de impedir ou comprometer o alcance dos objetivos institucionais.

Objetivos Identificar riscos Avaliar Tratar Monitorar

Exemplos de riscos incluem falhas em contratações, indisponibilidade de sistemas, fraudes, descontinuidade de serviços, insuficiência de pessoal, perda de dados, atrasos em projetos e descumprimento de requisitos legais.

9. Integridade, ética e prevenção de desvios

A integridade é componente essencial da governança. Uma organização pública precisa estabelecer padrões de conduta, prevenir conflitos de interesse, manter canais de denúncia, tratar riscos de fraude e corrupção e responsabilizar adequadamente desvios identificados.

Programa de integridade eficaz: não se resume a documentos formais. É necessário que políticas, controles, capacitações, canais de denúncia, gestão de riscos e comportamento da liderança funcionem de maneira integrada.

10. Transparência, participação e prestação de contas

A governança pública pressupõe que decisões e resultados possam ser conhecidos e avaliados pelas partes interessadas. A Lei nº 12.527/2011 fortalece o acesso à informação, enquanto a Lei nº 13.460/2017 disciplina participação, proteção e defesa dos direitos dos usuários dos serviços públicos.

Transparência

Publicar informações relevantes, compreensíveis e atualizadas.

Participação

Ouvir cidadãos, usuários, servidores e demais partes interessadas.

Accountability

Explicar decisões, demonstrar resultados e assumir responsabilidades.

11. Governança das contratações públicas

A Lei nº 14.133/2021 atribui à alta administração a responsabilidade pela governança das contratações e determina a implementação de processos e estruturas, inclusive de gestão de riscos e controles internos, para avaliar, direcionar e monitorar licitações e contratos.

No Poder Judiciário, a Resolução CNJ nº 347/2020 institui a Política de Governança das Contratações Públicas. A norma foi alterada pela Resolução CNJ nº 637/2025 para adequação à Lei nº 14.133/2021.

Planejamento estratégico Plano de contratações Gestão de riscos Contratação Fiscalização Resultados
Exemplo prático: governança das contratações não é realizar o pregão. É assegurar que a organização contrate aquilo de que realmente necessita, no momento adequado, com riscos controlados e resultados monitorados.

12. Indicadores para monitorar a governança

Governança precisa produzir informação útil para tomada de decisão. Por isso, indicadores devem permitir verificar se as diretrizes estão efetivamente produzindo resultados.

DimensãoExemplos de indicadores
EstratégiaPercentual de objetivos estratégicos com metas atingidas; projetos prioritários concluídos.
RiscosPercentual de riscos críticos com plano de tratamento; ações de tratamento vencidas.
ContrataçõesExecução do plano anual; tempo médio de contratação; contratos com indicadores de desempenho.
IntegridadeRiscos de integridade tratados; capacitações realizadas; tempo de tratamento de manifestações.
TransparênciaÍndice de transparência; atualização tempestiva de dados; atendimento a pedidos de informação.
ServiçosSatisfação do usuário; tempo de atendimento; percentual de demandas resolvidas.
Cuidado com indicadores meramente quantitativos: medir apenas quantidade de reuniões, treinamentos ou relatórios não demonstra, por si só, boa governança. O ideal é combinar indicadores de atividade, resultado, risco e impacto.

13. Maturidade de governança

Uma forma prática de avaliar a evolução institucional é observar o nível de maturidade dos mecanismos de governança.

NívelCaracterísticas
1. InicialPráticas informais, dependência de pessoas e baixa padronização.
2. EstruturadoPolíticas, responsabilidades e procedimentos começam a ser formalizados.
3. ImplementadoPráticas são executadas de forma regular, com indicadores e registros.
4. MonitoradoResultados, riscos e controles são acompanhados sistematicamente pela liderança.
5. AprimoradoDecisões são orientadas por evidências e há melhoria contínua das práticas de governança.

Escala didática proposta para facilitar avaliação interna; não substitui modelos oficiais de avaliação eventualmente adotados pelo órgão.

14. Roteiro prático para implantação ou aprimoramento

EtapaProvidênciaProduto esperado
1Identificar objetivos, partes interessadas e responsabilidades.Mapa de governança.
2Definir instâncias decisórias e papéis.Matriz de responsabilidades.
3Mapear riscos estratégicos.Matriz de riscos e controles.
4Definir indicadores e metas.Painel de governança.
5Integrar planejamento, orçamento, pessoas e contratações.Planos alinhados à estratégia.
6Estabelecer mecanismos de integridade e transparência.Políticas, canais e controles.
7Monitorar resultados e riscos periodicamente.Relatórios gerenciais.
8Reavaliar decisões e aperfeiçoar processos.Plano de melhoria contínua.

15. Quadro-resumo

ElementoPergunta centralExemplo
LiderançaQuem direciona e assume responsabilidade?Alta administração, comitês e dirigentes.
EstratégiaOnde queremos chegar?Objetivos, metas, indicadores e prioridades.
ControleComo saberemos se estamos no caminho correto?Riscos, controles, auditoria e prestação de contas.
IntegridadeAs decisões são éticas e confiáveis?Código de conduta, controles antifraude e canais de denúncia.
TransparênciaAs partes interessadas conseguem compreender a atuação?Portais, relatórios e dados acessíveis.
ResultadosEstamos gerando valor público?Serviços melhores, metas atingidas e necessidades atendidas.

16. Questões para revisão

  1. O que diferencia governança de gestão?
  2. Quais são as três funções básicas do ciclo de governança?
  3. Quais são os três mecanismos centrais adotados pelo Decreto nº 9.203/2017 e pelo TCU?
  4. Quais são os princípios de governança estabelecidos pelo Decreto nº 9.203/2017?
  5. Qual é o papel da alta administração na governança?
  6. Por que a gestão de riscos é parte da governança?
  7. Qual a relação entre integridade e governança?
  8. Como transparência e participação social fortalecem a governança?
  9. Quem é responsável pela governança das contratações segundo a Lei nº 14.133/2021?
  10. Qual resolução do CNJ disciplina a governança das contratações no Poder Judiciário?
  11. Por que indicadores de atividade isolados podem ser insuficientes?
  12. O que caracteriza uma organização com maior maturidade de governança?
Ver gabarito comentado
  1. A governança avalia, direciona e monitora; a gestão planeja e executa as ações necessárias para alcançar os resultados definidos.
  2. Avaliar, direcionar e monitorar.
  3. Liderança, estratégia e controle.
  4. Capacidade de resposta, integridade, confiabilidade, melhoria regulatória, prestação de contas e responsabilidade, e transparência.
  5. Definir direcionamentos, responsabilidades, prioridades, limites de risco e acompanhar resultados.
  6. Porque riscos podem impedir o alcance dos objetivos e precisam ser conhecidos, tratados e monitorados.
  7. A integridade fortalece decisões éticas, prevenção de desvios e confiança institucional.
  8. Permitem escrutínio, contribuição das partes interessadas e prestação de contas sobre decisões e resultados.
  9. A alta administração do órgão ou entidade.
  10. Resolução CNJ nº 347/2020, com alterações posteriores, entre elas a Resolução nº 637/2025.
  11. Porque quantidade de atividades não demonstra necessariamente qualidade, resultado ou impacto.
  12. Práticas institucionalizadas, monitoramento sistemático, decisões baseadas em evidências, gestão de riscos e melhoria contínua.

17. Fontes oficiais e referências para aprofundamento

Nota: este conteúdo possui finalidade acadêmica e de apoio à gestão. O Decreto nº 9.203/2017 possui âmbito específico na Administração Pública federal, embora seus conceitos e boas práticas sejam amplamente utilizados como referência. Órgãos de outros Poderes e entes federativos devem observar também seus próprios normativos de governança.

↑ Voltar ao início

Rolar para cima