Contabilidade Financeira • Aula para graduação
Notas Explicativas às Demonstrações Contábeis
Conceitos, requisitos legais e normativos, estrutura, exemplos práticos, estudo de caso e boas práticas de evidenciação.
Prof. Fabrício de Q. Macêdo.
Sumário navegável
- 1. Apresentação e objetivos de aprendizagem
- 2. Conceito, finalidade e importância
- 3. Fundamentação legal e normativa
- 4. Estrutura e ordem recomendada das notas
- 5. Conjunto mínimo usual de Notas Explicativas
- 6. Principais notas: conteúdo e exemplos
- 7. Materialidade, agregação e excesso de informação
- 8. Políticas contábeis, julgamentos e estimativas
- 9. Estudo de caso — Comercial Horizonte Ltda.
- 10. Modelo simplificado de Notas Explicativas
- 11. Erros frequentes e boas práticas
- 12. Atividade de fixação
- 13. Síntese da aula
- 14. Referências
1. Apresentação e objetivos de aprendizagem
As Notas Explicativas integram as demonstrações contábeis e têm a função de ampliar, detalhar e contextualizar as informações apresentadas nos demonstrativos principais. Elas permitem compreender critérios de reconhecimento e mensuração, políticas contábeis materiais, julgamentos profissionais, estimativas, riscos, incertezas e fatos que não podem ser adequadamente comunicados apenas por números.
Ao final da aula, o estudante deverá ser capaz de:
- conceituar e explicar a finalidade das Notas Explicativas;
- identificar sua base legal e normativa;
- reconhecer o conjunto mínimo usual de divulgações;
- avaliar materialidade, clareza e relevância das informações;
- redigir notas simples e tecnicamente adequadas.
Conhecimentos prévios
- estrutura básica do Balanço Patrimonial, DRE, DFC, DMPL e DVA;
- regime de competência;
- conceitos de ativo, passivo, patrimônio líquido, receita e despesa;
- noções de reconhecimento, mensuração e evidenciação.
2. Conceito, finalidade e importância
Notas Explicativas são informações adicionais às apresentadas no Balanço Patrimonial, na Demonstração do Resultado, na Demonstração do Resultado Abrangente, na Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido, na Demonstração dos Fluxos de Caixa e, quando exigida, na Demonstração do Valor Adicionado. Elas apresentam descrições narrativas, desagregações, reconciliações e informações sobre itens que não atendem aos critérios de reconhecimento nos demonstrativos, mas que são relevantes para os usuários.
Nos termos do art. 176, §§ 4º e 5º, da Lei nº 6.404/1976, as demonstrações devem ser complementadas por Notas Explicativas e outros quadros necessários ao esclarecimento da situação patrimonial e dos resultados. As notas devem, entre outros pontos, apresentar a base de preparação, as práticas contábeis, informações adicionais exigidas e dados relevantes não evidenciados em outra parte.
| Demonstrativos principais | Notas Explicativas |
|---|---|
| Apresentam valores agregados e estruturados. | Explicam composição, critérios, riscos e movimentações. |
| Favorecem visão sintética. | Favorecem compreensão analítica e contextual. |
| Reconhecem apenas itens que atendem aos critérios contábeis. | Podem divulgar contingências, compromissos e incertezas não reconhecidos. |
| Possuem formatos padronizados. | Devem ser adaptadas à realidade da entidade. |
3. Fundamentação legal e normativa
3.1 Lei nº 6.404/1976
O art. 176 determina a elaboração das demonstrações financeiras ao fim de cada exercício social e estabelece que elas sejam complementadas por Notas Explicativas. O § 5º exige informações sobre a base de preparação e práticas contábeis, critérios de avaliação, investimentos relevantes, aumentos de valor de ativos, ônus, garantias, contingências, taxas e vencimentos de obrigações de longo prazo, capital social, opções de compra de ações, ajustes de exercícios anteriores e eventos subsequentes relevantes.
3.2 CPC 26 (R1) e NBC TG 26 (R5)
Para demonstrações referentes a períodos anuais iniciados antes de 1º de janeiro de 2027, o CPC 26 (R1), correspondente à NBC TG 26 (R5), permanece como principal referência sobre apresentação das demonstrações e estrutura das notas. Ele requer declaração explícita de conformidade, divulgação de políticas contábeis materiais, julgamentos, fontes de incerteza de estimativas, capital e outras informações relevantes.
3.3 Transição para CPC 51 e NBC TG 51
O CPC 51 — Apresentação e Divulgação nas Demonstrações Contábeis — e a NBC TG 51 foram emitidos em 2025/2026, em convergência à IFRS 18. O CPC 51 substitui o CPC 26 e será aplicado aos períodos anuais iniciados em 1º de janeiro de 2027. A aula utiliza o CPC 26 para o cenário vigente em 2026 e apresenta a transição para que o estudante compreenda a mudança normativa.
3.4 Outros pronunciamentos relevantes
| Normativo | Divulgação relacionada |
|---|---|
| CPC 00 (R2) | Características qualitativas, materialidade e utilidade da informação. |
| CPC 05 (R1) | Partes relacionadas, saldos, transações e remuneração do pessoal-chave. |
| CPC 06 (R2) | Arrendamentos, ativos de direito de uso e passivos. |
| CPC 23 | Políticas contábeis, mudanças de estimativas e correção de erros. |
| CPC 24 | Eventos subsequentes ao período de reporte. |
| CPC 25 | Provisões, passivos contingentes e ativos contingentes. |
| CPC 27 | Imobilizado, métodos de depreciação, vidas úteis e conciliações. |
| CPC 32 | Tributos sobre o lucro, ativos e passivos fiscais diferidos. |
| CPC 46 | Mensuração do valor justo e hierarquia de inputs. |
| CPC 47 | Receita de contrato com cliente e obrigações de desempenho. |
| CPC 48 | Instrumentos financeiros, perdas esperadas e riscos. |
4. Estrutura e ordem recomendada das notas
O CPC 26 recomenda apresentação sistemática. Cada item dos demonstrativos deve conter referência cruzada para a nota correspondente, quando aplicável. Uma sequência didática e amplamente utilizada é:
- informações gerais sobre a entidade e suas operações;
- declaração de conformidade com as práticas contábeis adotadas;
- base de elaboração e moeda de apresentação;
- políticas contábeis materiais;
- julgamentos, estimativas e premissas relevantes;
- notas de apoio aos itens dos demonstrativos, na ordem em que aparecem;
- outras divulgações: contingências, compromissos, partes relacionadas, riscos, eventos subsequentes e continuidade.
Critérios de qualidade
- materialidade: divulgar o que pode influenciar decisões;
- clareza: usar linguagem objetiva, evitando jargão desnecessário;
- comparabilidade: manter critérios consistentes e explicar alterações;
- concisão: evitar repetição e textos padronizados sem conexão com a entidade;
- especificidade: substituir descrições genéricas por informações próprias da entidade.
5. Conjunto mínimo usual de Notas Explicativas
Não existe um conjunto universal idêntico para todas as entidades. O conteúdo depende de porte, complexidade, setor, materialidade, riscos e normativos aplicáveis. Contudo, um conjunto mínimo usual inclui:
Institucionais e bases
- contexto operacional;
- base de preparação;
- declaração de conformidade;
- moeda funcional e de apresentação;
- continuidade operacional.
Políticas e estimativas
- políticas contábeis materiais;
- julgamentos relevantes;
- fontes de incerteza;
- mudanças de políticas e estimativas;
- correção de erros.
Ativos
- caixa;
- contas a receber;
- estoques;
- investimentos;
- imobilizado e intangível;
- impairment.
Passivos e PL
- fornecedores;
- empréstimos;
- obrigações fiscais e trabalhistas;
- provisões e contingências;
- capital, reservas e dividendos.
Resultado
- receitas;
- custos e despesas;
- resultado financeiro;
- tributos sobre o lucro;
- resultado por ação, quando aplicável.
Outras divulgações
- partes relacionadas;
- instrumentos e riscos financeiros;
- arrendamentos;
- benefícios a empregados;
- eventos subsequentes;
- compromissos e garantias.
6. Principais notas: conteúdo e exemplos
6.1 Caixa e equivalentes de caixa
Apresentar composição, critérios para classificação, restrições de uso, saldos bancários relevantes e conciliação com a DFC quando necessária.
6.2 Contas a receber e perdas de crédito
Divulgar composição por natureza e vencimento, concentração de risco, critérios de mensuração e movimentação da provisão para perdas de crédito esperadas.
6.3 Estoques
Informar políticas de mensuração, método de custeio, composição, perdas por redução ao valor realizável líquido, reversões, estoques reconhecidos como despesa e itens dados em garantia.
6.4 Imobilizado
Apresentar bases de mensuração, métodos e taxas de depreciação, vidas úteis, valores brutos e depreciação acumulada, conciliação das movimentações, restrições e compromissos de aquisição.
6.5 Intangível
Separar classes, indicar vidas úteis definidas ou indefinidas, métodos de amortização, valores contábeis, adições, baixas, amortização, impairment e pesquisa e desenvolvimento, quando aplicável.
6.6 Provisões e contingências
Uma provisão é reconhecida quando existe obrigação presente, saída provável de recursos e estimativa confiável. Passivos contingentes, em regra, não são reconhecidos, mas são divulgados quando a saída é possível; quando remota, normalmente não há divulgação. Ativos contingentes não são reconhecidos e são divulgados quando a entrada de benefícios é provável.
6.7 Empréstimos e financiamentos
Divulgar instituições, modalidades, taxas, indexadores, garantias, cronograma de vencimentos, cláusulas restritivas e descumprimentos.
6.8 Patrimônio líquido
Informar quantidade e classes de ações ou quotas, capital autorizado e subscrito, movimentações, reservas, ações em tesouraria, dividendos e política de distribuição.
6.9 Receita
Divulgar políticas de reconhecimento, desagregação por natureza, mercado ou momento de reconhecimento, saldos contratuais e obrigações de desempenho relevantes.
6.10 Partes relacionadas
Apresentar natureza dos relacionamentos, transações, saldos, condições, garantias, perdas e remuneração do pessoal-chave da administração.
6.11 Eventos subsequentes
Distinguir eventos que originam ajustes, por evidenciarem condições existentes na data do balanço, daqueles que não originam ajustes, mas exigem divulgação quando materiais.
7. Materialidade, agregação e excesso de informação
A informação é material quando se pode razoavelmente esperar que sua omissão, distorção ou obscurecimento influencie decisões dos usuários primários. A materialidade não é determinada apenas por percentual: natureza, contexto, risco, sensibilidade e interesse público também importam.
| Situação | Tratamento recomendado |
|---|---|
| Saldo pequeno, mas relacionado a fraude. | Pode ser material pela natureza. |
| Política copiada integralmente da norma, sem relação com operações reais. | Resumir e personalizar. |
| Classe material agregada com itens de características distintas. | Desagregar. |
| Informação imaterial repetida por vários anos. | Reavaliar necessidade e remover, se não útil. |
| Risco relevante descrito genericamente. | Explicar exposição, gestão e efeitos específicos. |
8. Políticas contábeis, julgamentos e estimativas
Políticas contábeis materiais
São princípios, bases, convenções, regras e práticas específicas adotadas pela entidade. Devem ser divulgadas quando forem necessárias à compreensão das demonstrações. Políticas padronizadas sem relevância devem ser evitadas.
Julgamentos
São decisões da administração na aplicação das políticas que produzem efeitos significativos, como determinar se há controle, classificar contrato como contendo arrendamento ou avaliar se a entidade atua como principal ou agente.
Estimativas e premissas
Envolvem incerteza e podem resultar em ajustes materiais no período seguinte. Exemplos: vida útil do imobilizado, perdas de crédito esperadas, provisões judiciais, valor recuperável, valor justo e realização de tributos diferidos.
9. Estudo de caso — Comercial Horizonte Ltda.
A Comercial Horizonte Ltda. encerrou o exercício com os seguintes fatos:
- estoques de R$ 420.000, dos quais R$ 30.000 apresentam risco de obsolescência;
- ação trabalhista de R$ 80.000, com perda provável e estimativa confiável;
- ação tributária de R$ 150.000, com perda possível;
- empréstimo de R$ 600.000, garantido por imóvel e sujeito a cláusula de liquidez;
- venda relevante a empresa controlada por sócio comum;
- incêndio ocorrido após o encerramento, sem relação com condições existentes na data do balanço, com perda estimada em R$ 200.000.
Tratamento sugerido
- avaliar e reconhecer perda de estoque se o valor realizável líquido for inferior ao custo, divulgando critério e efeito;
- reconhecer provisão trabalhista de R$ 80.000 e divulgar natureza, incertezas e movimentação;
- não reconhecer a ação tributária, mas divulgá-la como passivo contingente;
- divulgar empréstimo, taxa, vencimento, garantia e covenant;
- divulgar a transação com parte relacionada, saldo e condições;
- não ajustar as demonstrações pelo incêndio, mas divulgar o evento subsequente material e estimativa do efeito.
10. Modelo simplificado de Notas Explicativas
Nota 1 — Contexto operacional
A Comercial Horizonte Ltda. é uma sociedade limitada, com sede em Boa Vista/RR, dedicada ao comércio atacadista de materiais de escritório.
Nota 2 — Base de elaboração e conformidade
As demonstrações contábeis foram elaboradas de acordo com as práticas contábeis adotadas no Brasil aplicáveis à entidade e com base no pressuposto da continuidade operacional. A moeda funcional e de apresentação é o real.
Nota 3 — Políticas contábeis materiais
Os estoques são mensurados pelo menor valor entre custo médio ponderado e valor realizável líquido. O imobilizado é mensurado ao custo, deduzido da depreciação acumulada e de perdas por redução ao valor recuperável.
Nota 4 — Julgamentos e estimativas
As principais estimativas referem-se às perdas esperadas em contas a receber, obsolescência de estoques, vidas úteis do imobilizado e provisões judiciais.
Nota 5 — Estoques
| Classe | 20X2 | 20X1 |
|---|---|---|
| Mercadorias para revenda | 450.000 | 390.000 |
| (-) Perda por obsolescência | (30.000) | (18.000) |
| Total | 420.000 | 372.000 |
Nota 6 — Provisões e contingências
A entidade reconheceu provisão trabalhista de R$ 80.000. Há ainda processo tributário de R$ 150.000, classificado pelos assessores jurídicos como perda possível, não reconhecido no balanço.
Nota 7 — Eventos subsequentes
Em 15 de janeiro de 20X3, ocorreu incêndio em depósito, com perda preliminar estimada em R$ 200.000. O evento não ajusta os saldos de 31 de dezembro de 20X2.
Modelo exclusivamente didático. A redação real deve ser adaptada às operações, aos riscos, ao porte e às normas aplicáveis à entidade.
11. Erros frequentes e boas práticas
| Erro frequente | Boa prática |
|---|---|
| Copiar texto integral de normas. | Descrever somente políticas materiais e específicas. |
| Não reconciliar valores com os demonstrativos. | Usar controles de conferência e referências cruzadas. |
| Omitir comparativos. | Apresentar período corrente e anterior, salvo exceção normativa. |
| Divulgar contingências sem avaliação de risco. | Indicar natureza, probabilidade, valor ou impossibilidade de estimar. |
| Usar linguagem genérica para continuidade. | Explicar fatos, planos e incertezas materiais. |
| Manter notas imateriais e repetitivas. | Revisar anualmente e eliminar conteúdo sem utilidade. |
| Inconsistência de datas e valores. | Fazer revisão cruzada, matemática e normativa. |
12. Atividade de fixação
- Explique por que as Notas Explicativas são parte integrante das demonstrações contábeis.
- Diferencie provisão de passivo contingente.
- Indique três divulgações essenciais sobre imobilizado.
- Explique a diferença entre evento subsequente ajustável e não ajustável.
- Reescreva a frase genérica “a empresa reconhece receitas conforme as normas” de modo específico para uma entidade que vende mercadorias com entrega imediata.
Orientações para discussão
As respostas devem relacionar utilidade, materialidade, critérios de reconhecimento, riscos e especificidade das políticas. Na questão 5, uma redação possível é: “A receita da venda de mercadorias é reconhecida quando o controle dos produtos é transferido ao cliente, geralmente no momento da entrega e aceitação.”
13. Síntese da aula
- Notas Explicativas integram as demonstrações contábeis.
- Elas detalham valores, políticas, julgamentos, estimativas, riscos e fatos não reconhecidos.
- A Lei nº 6.404/1976 e o CPC 26/NBC TG 26 fundamentam sua elaboração em 2026.
- O CPC 51/NBC TG 51 substituirá o CPC 26 para períodos anuais iniciados em 2027.
- Não existe modelo único: materialidade e características da entidade orientam o conteúdo.
- Clareza, concisão, especificidade, comparabilidade e referências cruzadas aumentam a utilidade.
14. Referências
Legislação
- BRASIL. Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976. Dispõe sobre as Sociedades por Ações. Texto compilado.
- BRASIL. Lei nº 11.638, de 28 de dezembro de 2007.
Pronunciamentos e normas
- COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS. CPC 00 (R2) — Estrutura Conceitual para Relatório Financeiro.
- CPC 05 (R1), CPC 06 (R2), CPC 23, CPC 24, CPC 25, CPC 26 (R1), CPC 27, CPC 32, CPC 46, CPC 47 e CPC 48.
- COMITÊ DE PRONUNCIAMENTOS CONTÁBEIS. CPC 51 — Apresentação e Divulgação nas Demonstrações Contábeis. Aplicação a partir de períodos anuais iniciados em 1º de janeiro de 2027.
- CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. NBC TG 26 (R5) e NBC TG 51.
Fontes oficiais consultadas
- Planalto: Lei nº 6.404/1976 — https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l6404compilada.htm
- CPC 26 (R1) — https://www.cpc.org.br/CPC/Documentos-Emitidos/Pronunciamentos/Pronunciamento?Id=57
- CPC 51 — https://www.cpc.org.br/Arquivos/Documentos/665_CPC%2051.pdf
- CFC — Normas completas — https://cfc.org.br/tecnica/normas-brasileiras-de-contabilidade/normas-completas/
- CFC — Provas anteriores do Exame de Suficiência — https://cfc.org.br/exame-de-suficiencia-anteriores/
